Partindo do “Papel e Lápis”

 

Concordo com vários artistas quando dizem que a “criatividade resulta da soma de todas as experiências vividas”. Ao mesmo tempo em que acredito, também, que algumas pessoas tem seus traços criativos naturalmente mais aguçados que outras. Mas, felizmente, pra mim isso não é uma verdade plena e imutável. Todos tem alguma chance quando o assunto é criatividade, bastando pra isso exercitá-la, muito… e muito.

Porém, neste artigo, não me interesso em fomentar essa discussão, e sim cooperar com aquelas pessoas que desejam aperfeiçoar seus métodos de criação gráfica. Assim como não o farei como um especialista no assunto. Longe disso. Minha intenção apenas é apresentar meus métodos e um pouco de como eu cheguei até aqui, como artista gráfico praticante, desde a minha infância e adolescência.

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Um personagem para uma campanha pessoal no ano de 2000, em que eu comecei por rabiscos em pedaços de papéis que estavam jogados sobre minha mesa de trabalho.

É fato que qualquer grande designer (substantivo de origem inglesa, que em português significa desenhista) tem alguma habilidade em desenhar a mão-livre, tanto o é que as melhores ferramentas de criação em design foram, são e serão, por muito tempo, os nossos queridos Lápis e Papel.

Grandes projetos visuais tiveram seus momentos embrionários em meros papéis. Um grande, e nacionalmente sabido, exemplo é o da Vênus Platinada da Globo, em que seu criador, o alemão Hans Jürgen Donner, teve um insight em seu primeiro voo entre Austria e Brasil, no ano de 1974, quando desenhou o seu grande sucesso em um guardanapo de papel no avião.

Alguns podem dizer que a produção é mais rápida quando feita diretamente no computador. Sim, pode até ser uma verdade. Mas quando o processo de criação é iniciado dessa forma os criadores, em sua esmagadora maioria, se viciam ou limitam-se nos recursos do aplicativo usado no PC e terminam por não deixar sua criatividade fluir totalmente. Os resultados geralmente são visuais plásticos e com “cara de programa”.

Isso me faz recordar da época do lançamento do CorelDRAW 7 (ano 1996), em que as grandes novidades deste aplicativo eram as ferramentas de Transparência e a de Sombra.

Foi uma enxurrada de artes gráficas carregadas com esses efeitos, cheias de sombras e abusando das transparências. Bastava algum gaiato olhar um cartaz da época e logo ele gritava: Ah! Moleza… isso eu sei fazer,… o computador é quem faz… é o CorelDRAW!

Nesse momento notei que tínhamos que ter muito cuidado com as ferramentas: computador e editor gráfico eletrônico. Porque, além de nos deixar bitolados com os efeitos bacaninhas e não firmarmos nossa liberdade artística no resultado do trabalho, ainda fazia parecer que ser um artista gráfico profissional era moleza. E pra piorar a situação, a HP tinha acabado de lançar suas primeiras linhas de impressoras Jato de Tinta coloridas. Todo maluco com grana sobrando tratava logo de comprar um PC, instalava programinhas com bibliotecas de imagens cliparts (Print Artist, PrintGold, etc.), uma impressora HP 450 colorida e ainda colocava em sua casa uma placa ridícula dizendo assim: “CRIAMOS LOGOMARCAS E FAZEMOS CARTÕES DE VISITAS” – Eu perguntava pra eles, só de zoação: “o que essas tais logomarcas comem?”.

Mas a verdade sempre impera. Como talento e compromisso não eram o forte desses designers de araque, tecnologia só não bastava. No final todos encostaram suas “máquinas de desenhar” e mudaram de empreendimento. Pra felicidade geral da nação de designers de verdade.

Artista usa desenhos a lápis para alterar realidade de fotos

Portanto está mais do que evidente que ser um bom designer implica em exercitar muito a sua criatividade,  seu pulso, poder de observação e expressar sua vontade de aprimorar através de seus experimentos.

Perceber como o mundo visual age ao nosso redor já é uma arte e isso pode ser feito por qualquer pessoa. Aquelas que se interessam mais por esse fenômeno tendem a estimular cada um de seus sentidos através de muito estudo e experimentos. A cada vez mais se superando e buscando novos caminhos e resultados.

Aqui no meu blog irei abordar muitas dessas técnicas de observação, interpretação visual e análise de: forma e volume; luz e sombra; perspectivas; pontos, retas e planos; etc. Porém, neste momento, deixarei apenas algumas boas práticas que o ajudarão a avivar sua criatividade e lógica de planejamento.

DICAS INICIAIS

  • Leia muito e leia um pouco de tudo. Não é necessário ser um expert em determinado assunto, mas saber um pouco de muita coisa te dará experiências que funcionarão como peças pra te ajudar a montar muitos quebra-cabeças que surgirão em sua vida.
  • Observe tudo ao seu redor. Esforce-se para entender como as coisas funcionam.
  • Tente memorizar objetos e movimentos. Quando estiver só e em um lugar tranquilo, como ao se deitar, lembre-se das formas e da dinâmica de movimento que você observou. Imagine-se modelando ou movimentando esses objetos.
  • Escreva ou desenhe qualquer ideia a qualquer hora. Não despreze nada! Por pior que te pareça o seu texto ou desenho, esse é apenas um embrião que está nascendo de, quem sabe, um bom trabalho no futuro. Muitos de meus trabalhos são montados de pequenos cacos que fiz durante minha vida. Eu os faço, guardo tudo e um dia junto uma peça aqui e outra ali. O resultado é sempre surpreendente.
  • Tenha sempre um papel e um lápis por perto quando for descansar ou dormir. Muitas ideias e insights surgem quando estamos relaxados. Perdi a conta de quantas ideias eu tive enquanto estava dormindo. Acordo levemente e anoto a ideia, depois volto pro sono e, acreditem nisso, volto pro momento em que estava sonhando e continuo, pra ver se tem mais coisa boa vindo no sonho. Se vier, acordo e anoto novamente. Pode parecer loucura ou impossível, mas se você acreditar e praticar vai entender o que eu digo. Dá certo, mesmo. Já perdi muitas ideias por não anotá-las e no outro dia não conseguir lembrar o que era. Infelizmente só conseguia lembrar que era uma grande ideia.

E, por enquanto, como última dica: Estudar, estudar, estudar e estudar muito. Seja de que forma for. Em casa, na escola, no cursinho, assistindo filmes e TV com bons programas educativos e documentários, fazendo palavras-cruzadas (que eu sou fã), conversando com pessoas com conteúdo produtivo, viajando, escutando boas músicas e em vários idiomas, etc.

Bem, pessoal. Por enquanto é isso.

Um grande abraço e até a próxima.

 

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